segunda-feira, 27 de julho de 2009

AUGUSTO PELLEGRINI E QUARTETO BOM TOM NO DA GEMA


Quarteto Bom Tom, no Da Gema. Foto: Da Gema food & music
Show de jazz foi a apresentação do Quarteto Bom Tom no bar restaurante Da Gema no sábado passado.
Perfeito é o entrosamento do grupo, que abrilhantou a platéia com desenvolvimentos de temas já clássicos do jazz com muito improviso.

Augusto Pellegrini
Belos, emotivos, às vezes enérgicos ou leves e macios, assim foram os solos de sax e trompete praticados por Júlio Pinheiro e Miranda Neto, que contaram com retaguarda segura de Celson Mendes (violão e guitarra) e Fleming, um baterista cujo toque preciso e leve deixa os demais componentes muito tranquilos para deixar o jazz fluir solto.
Aliás, a atmosfera do local estava tão leve que logo apareceu quem quisesse dar sua canja. Foi o caso de Aquiles que nos revelou uma surpreendente voz e boa interpretação. Por lá também estava o fabuloso e carismático Augusto Pellegrini,
que logo teve que subir o palco e encantar com sua voz, ao desfiar as belas canções da era de ouro do jazz.
Foto: Da Gema food & music
A platéia entusiasmou-se tanto que não deu outra: a próxima edição do Jazz da Gema será com AUGUSTO PELLEGRINI E QUARTETO BOM TOM.
Pellegrini é o dos maiores divulgadores do jazz no Brasil, tendo já inclusive sido premiado por seus instrutivos programas de jazz em rádio pelo Festival de Rádio de Nova York. É escritor e músico, sim, porque voz também é um instrumento e ele a sabe usar como poucos.
Não dá pra perder, não é. Então, até sábado!

SERVIÇO

O QUÊ: Projeto Jazz Da Gema recebe Augusto Pellegrini e Quarteto Bom Tom

QUANDO: Sábado (01/08), às 22h.
ONDE: Bar e Restaurante Da Gema (Av. dos Holandeses, Ponta do Farol)
Informações: pelo telefone (98) 32353588



sábado, 25 de julho de 2009

ELEONORA E ALBERTA


Billie Holiday fez cinquenta anos de falecida e, claro, seus encantos e talentos foram decantados em inúmeras matérias na internet. Recebi email de Augusto Pellegrini com o conto Eleonora e Alberta que foi publicado no seu livro O Fantasma da FM (1992).


O autor está revisando os contos e pretende reeditar o livro brevemente. Já o havia lido e por possuir vários outros bons contos é uma leitura recomendada. Desejando partilhar sua leitura com nossos leitores, solicitei autorização a Augusto para postar o conto que prontamente concordou.

Ei-lo. Espero que gostem!




Eleonora e Alberta


Por Augusto Pellegrini



Quando Eleonora nasceu, nos idos de mil novecentos e quinze, em um cortiço mal-cheiroso de Baltimore, sujo e negro como todos os cortiços do mundo, afagada pelo vento do mar e pelo cheiro forte de peixe – o peixe colocado nos caixotes com gelo e as vísceras cobertas por moscas azuis se entulhando junto ao lixo da baía de Chesapeake – Alberta já era uma graciosa jovem.
Alberta era dona de uma simpatia irradiante que sempre a acompanhou ao longo da vida, embora nunca tenha sido bonita. Tinha o rosto comprido e os olhos maliciosos, o cabelo crespo preso atrás da nuca e os gestos bruscos, e parecia bem mais jovem na simiesca figura dos seus já vinte anos.
Eleonora chorava vagidos de melancolia usando a máscara do desencanto e da desilusão que seria o seu rictus perene, encolhida nos braços pouco espertos e mal-costumados de uma mãe de pouco mais de treze anos de idade. Ela havia sido expulsa de casa com a severidade vitoriana do pai inconformado e da mãe indignada – afinal, se perder assim vá lá, tantas são as mocinhas que tropeçam no umbral da existência, mas não com um músico semi-analfabeto, um miserável desempregado que, além de tudo, era negro!. Se pelo menos tivesse “errado”, mas com o filho de um comerciante, ainda poderiam sobrar uns dólares de prata para consertar o mal-feito...
A mãe de Eleonora, inexperiente e confusa, havia conseguido um emprego de ajudante na casa grande de um burguês de classe média alta e fazia os seus deveres como se a Guerra de Secessão ou se Abraham Lincoln não tivessem existido, como se os escravos não tivessem sido alforriados e a chibata ainda cantasse vergalhando os dorsos cor de pau-de-canela.
Enquanto Eleonora chorava e sua mãe lustrava a bandeja de prata que chegara da Inglaterra no bojo do Mayflower, Alberta exibia seus dotes artísticos e exercitava o seu canto em alguns dos chamados cafés e casas noturnas de uma Chicago que começava a aprender as manhas da violência com a influência siciliana da mão negra, a “cosa nostra”.
Eleonora Fagan, com seu nome de foto-novela, estava começando naquele instante uma vida mais voltada para o último ato de uma ópera do que para o último capítulo de uma história de amor, mais para tragédia grega do que para comédia francesa, mais para heroína de injetar na veia do que para heroína de folhetim, uma vida ao mesmo tempo predestinada ao sucesso e ao insucesso.
Já Alberta, com seu nome de nobreza, se constituía numa rainha da noite, compondo e cantando músicas e sendo cortejada pelo blues, mesmo sem esquecer o seu passado, a infância precária na Memphis racista, os atentados da Ku Klux Klan, a falta de oportunidades e o ingresso na marginalidade precoce sob o olhar do xerife ruivo, gordo, intolerante .e beberrão
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No ano de mil oitocentos e noventa e cinco, tanto na poeira de Memphis como em qualquer outro lugar dos Estados Unidos, a vida não era fácil para camareiros de trens e de bordéis, principalmente se fossem negros, representando uma constante e monótona troca de lençóis e fronhas sujos pelos freqüentadores de curta duração e pouco banho, e pelos passageiros de longo percurso, repletos de parasitas, coceiras alérgicas e sífilis, percevejos à parte.
A mãe de Alberta era camareira de bordel, e seu pai um camareiro de trem.
Educar uma menina dentro do ambiente alegre, mas libertino, era uma tarefa complicada para uma mãe que não desejasse ver a filha envolvida com algum soldado de passagem ou com o próprio garçom ao final da noitada.
Assim, quase que estimulada pela própria mãe, que lhe entregou alguns poucos dólares disponíveis no momento, Alberta colocou seus parcos trapos numa maleta que tomou emprestada a uma daquelas mulheres que a sua mãe já lhe proibira de conversar, dependurou nas orelhas um par de argolas douradas e se pôs na estrada antes mesmo de completar oito anos, arrastando seu chinelo rumo ao desconhecido, evitando embarcar no trem onde o pai estava naquele exato momento apanhando as botinas de um próspero mercador de remédios para lhes dar uma demão de graxa.
Alberta chegou à poeirenta Chicago e foi esfregar o chão de um botequim qualquer enquanto ouvia interessada as cantoras da moda cantarem os seus blues e spirituals.
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Quando Eleonora nasceu, e abriu os olhos para o mundo por quem seria devorada pouco a pouco, Alberta jê era perita em alta malandragem, sentando-se no colo daqueles bêbados enlevados com a sua juventude e candura, beijando-lhes a boca sôfrega sabendo a cigarro e Bourbon, beliscando-lhes o lóbulo da orelha numa malícia insuspeita pela sua pouca idade e correndo as unhas pelo peito suado e cabeludo ao mesmo tempo em que tirava as mãos grosseiras e impertinentes que cismavam em se insinuar por onde não deviam. Nesse pega e tira, empurra e põe, afaga e esfrega, lá se ia de embrulho a carteira com o dinheiro do idiota que acabava depois enxotado do bar a ponta-pés por não ter como pagar a conta, atirado à rua por um leão de chácara de dois metros de altura e a cabeça enfiada nos ombros, campeão de boxe do distrito e santo protetor do dono da espelunca e das imaculadas mocinhas lanceiras.
Alberta então se recompunha, abotoava o vestido e ria o riso dos inocentes, para depois dividir a féria da noite com o leão e com alguma amiga leoa que havia participado do jogo.

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Enquanto isso, papai Clarence, habituado com as rodas boêmias, foi pouco a pouco se afastando de Eleonora e de “mamie”, ambas consideradas por ele como um indesejável estorvo.
Após pensar e repensar os prós e os contras, ele resolveu sumir de vez para tocar a sua guitarra e conquistar novas mulheres, obrigando “mamie” a transferir Eleonora aos cuidados de outra mulher que tinha como entretenimento especial espancar a menina sempre que lhe desse na telha, sob qualquer pretexto – fez ou não fez, quer ou não quer, vai ou na vai, gosta ou não gosta, principalmente quando alguma querela envolvia a filha legítima – e aí então, dá-lhe bordoada, na mais pura e cândida crueldade.
Eleonora fugiu.
Saiu à procura de qualquer coisa que lhe quisesse bem, e achou alguma coisa parecida com amizade na companhia de viciados, gigolôs e algumas vagabundas que faziam o ladro negro da juventude dourada dos anos dourados. Logo vieram a detenção, o interrogatório, as lágrimas, o veredito e a internação na diabólica casa de correção onde não se corrigia coisa alguma, um circo de horrores onde o que mais aprendeu foi odiar a vida.
Os fantasmas apareciam para atormentar o dia-a-dia e as dúvidas vinham lhe povoar os sonhos durante a noite.
Os fatos foram se desenrolando como numa fita cinematográfica. Uma menina caiu do balanço e quebrou o pescoço – morreu quase que instantaneamente com os olhos revirados e os braços se debatendo como uma galinha sacrificada em agonia. Eleonora agredida por outra interna e revidando com um cabo de vassoura, a monitora a acusando de ter feito isso e aquilo (“isso” Eleonora até concordava que fizera, mas “aquilo” ela não tinha feito) e então a chamada a um severo parlatório naquele fim de tarde conturbado.
Como castigo, uma noite trancada ao lado da menina morta, os olhos ainda abertos e revirados e a boca entreaberta como que a pedir clemência. Eleonora em desespero junto com a revolta e o medo tendo a impressão que a morta balbuciava o seu nome falando injúrias e maledicências, e a lembrança longínqua da avó morrendo enquanto a ninava em seus braços, cantarolando canções de adormecer e adormecendo para a eternidade...

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E Alberta continuava cantando.
Alberta cantou como um passarinho. Passou a infância, a mocidade, a idade adulta e o princípio da velhice soltando seus trinados e vivendo humildemente, como bem servia a uma filha de camareiros.
Ela encantou com a sua voz rouca e melodiosa até que, aos sessenta anos, sentiu-se cansada e ansiosa por ajudar as pessoas. Cantar simplesmente não bastava, ela tinha que ser como a formiga, laboriosa e útil. Tornou-se então enfermeira.
Alberta ocultava a sua alma de passarinho entre injeções e curativos, termômetros e drágeas, a sístole-diástole do estetoscópio fazendo as vezes do contrabaixo e ditando o ritmo da vida, a sirene da ambulância sabendo ao sopro de Louis Armstrong, Saint James Infirmary.

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Eleonora saiu do internato, voltou parta o colo da “mamie” e caiu nas graças daquele saxofonista com cara de sono a quem chamou de “Presidente” pelo apoio forte e desinteressado que lhe prestava, o que veio tornar o seu horizonte mais azul.
Ela agora cantava com a sua voz de gata, enquanto o Presidente fazia fluir notas dolentes e preguiçosas do seu instrumento dourado. Ela cantou e encantou, encheu os salões de belos sons, viajou e conheceu a América e, como a cigarra de La Fontaine, cantou como se cada dia fosse o último canto da sua vida.
Teve momentos de glória, teve momentos de angústia, teve uma vida de gardênias e jóias. Teve também problemas causados pela cor – afinal, por que Arthur, aquele judeu maluco, teve a idéia de incluí-la numa orquestra composta apenas por músicos brancos?

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Alberta envelheceu sem fortuna, trajando sua roupa simples, casaco puído e calçados de liquidação, carregando seus pecados junto aos embrulhos e aplicando cataplasmas para minimizar as dores, até que lhe apareceu um príncipe pianista – como nos contos de fada – que convenceu o anjo sapeca com mais de oitenta anos e voltar aos palcos.
Eleonora cresceu em cada canção e em cada casaco de visom, em cada jóia e em cada flor a lhe ornamentar os cabelos nas noites de platéia plena, cada nota musical um contrato milionário. No entanto, na hora da verdade, ela se escondia na bebida e na solidão, nas drogas e nas lembranças do passado.
Eleonora era ainda jovem, quarenta e quatro anos de tragédia e glória, quando foi levada para o hospital e morreu de tudo – álcool, tóxicos, tristeza, desajuste e solidão.
O Presidente chorou.
Alberta morreu como uma flor que nunca foi colhida, quase noventa anos de vida peralta e matreira. Nasceu vinte anos antes de Eleonora e se foi vinte e cinco anos depois.
O pianista fechou a tampa do piano como quem fecha um esquife, em sinal de pesar.

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Eleonora Fagan é o nome de batismo da cantora Billie Holiday. O nome Billie foi inspirado numa obscura atriz do cinema mudo chamada Billie Love e o sobrenome Holiday foi herdado do pai Clarence Holiday, guitarrista de orquestra que na verdade jamais lhe emprestara oficialmente o nome. Fagan era o sobrenome da mãe.
Billie Holiday morreu em julho de 1959 e deixou uma obra imortal.
Alberta é a cantora Alberta Hunter, uma das mais consideradas cantoras de blues e gospel, co-autora de Downhearted Blues, ao lado de Lovie Austin – primeiro e maior sucesso de Bessie Smith, mais de um milhão de cópias vendidas em 1923 – ao lado de Lovie Austin.
Ela morreu em outubro de 1984 e deixou como lembrança a sua voz grave e a sua graciosidade.
O Presidente é Lester Young, para quem Eleonora era simplesmente a “Lady Day”.
Arthur, o judeu, é Artie Shaw, clarinetista, maestro e arranjador, que viria tempos depois a escrever uma obra-prima “Encrencas com Cinderela”.


segunda-feira, 20 de julho de 2009

QUARTETO BOM TOM NO JAZZ DA GEMA

Maravilhoso foi o show de Jayr Torres Trio, que deu inicio ao Jazz Da Gema, sábado passado. De Deve Brubeck a Herbie Hancock, Jayr tirou sonoridades incríveis, demonstrando apuro técnico e o grande guitarrista que é. Quem esteve presente não se arrependeu e já está pedindo mais.

É claro que não se perdeu tempo. No próximo sábado (25), quem vai se apresentar no palco do Jazz Da Gema é o Quarteto Bom Tom.
O quarteto, que foi formado há dois anos, revela grande sintonia entre os músicos e possui repertório de mais de 500 músicas voltadas ao jazz, bossa nova e outros estilos.
O combo tem na formação atual Miranda Neto (trompete), Júlio Pinheiro (clarineta, sax e flauta), Fleming (bateria), além de Celson Mendes no violão e guitarra. São músicos experientes e com vastos currículos. O trompetista Miranda Neto, músico de orquestra, já acompanhou Frank Sinatra Jr. O versátil Júlio Pinheiro participou de vários grupos de jazz no sul do país e é reconhecido como um dos bons instrumentistas de sopro do Maranhão. Fleming, que dispensa comentários, é talvez o nosso mais experiente baterista e sua execução é conhecida pela precisão no toque. Celson Mendes, o líder do grupo, é fabuloso violonista e já teve a honra de acompanhar grandes nomes da música brasileira, tais como: Elza Soares, Zé da Velha e Silvério Pontes, Rita Ribeiro, Teresa Cristina, Zeca Baleiro e Célia Maria. O violonista tem ainda o carinho especial de ter dirigido musicalmente por vários anos o trabalho do saudoso mestre Antônio Vieira que lhe gerou enorme prazer e orgulho.

O Jazz Da Gema ocorre nas noites de sábado no bar e restaurante Da Gema. A culinária da casa é especializada na comida mediterrânea e é um excelente lugar para se encontrar amigos e encantar-se com os belos fraseados do jazz. O show começa às 22:00h com covert artístico.


SERVIÇO

O QUÊ: Projeto Jazz Da Gema recebe Quarteto Bom Tom
QUANDO: Sábado (25/07), às 22h.
ONDE: Bar e Restaurante Da Gema (Av. dos Holandeses, Ponta do Farol)Informações: pelo telefone (98) 32353588

sexta-feira, 17 de julho de 2009

JAYR TORRES TRIO ABRE PROJETO JAZZ DA GEMA







Jayr Torres Trio abrirá, na noite sábado (18), às 22h, o projeto Jazz Da Gema, que cobre uma lacuna na agenda cultural dos apreciadores de jazz da cidade e ocorrerá sempre aos sábados com uma nova atração.

Para quem gosta de boa música, motivo não falta para sair de casa e ir ao bar e restaurante Da Gema, aprazer-se com a culinária da casa, que é especializada na comida mediterrânea, encontrar os amigos e encantar-se com os fraseados jazzísticos do trio de Jair Torres.

O jazz veio a Jayr Torres por intermédio de Pat Metheny de quem achou o “som muito estranho e fascinante”. A partir de então, passou a ouvi-lo tanto até conseguir assimilar “todas aquelas harmonias e improvisos”. Daí não demorou muito receber elogios como os feitos por Toninho Horta ao seu fraseado jazzístico, após uma de suas apresentações.

É, a guitarra Jayr começava a dizer a que veio e a fazer sucesso! O trio é formado, além de Jair na guitarra, por Carlos Raqueth no contrabaixo e pelo talentoso Isaias Alves, na bateria. O primeiro CD do trio já está sendo gravado para registro dos talentos e conhecimentos desses bons músicos.

SERVIÇO

O QUÊ: Projeto Jazz Da Gema recebe Jayr Torres Trio
QUANDO: Amanhã (18/07), às 22h.
ONDE: Bar e Restaurante Da Gema (Av. dos Holandeses, Ponta do Farol
Informações: pelo telefone (98) 32353588

Apoio Cultural



quinta-feira, 16 de julho de 2009

BAR DO LÉO: APENAS 48 HORAS PARA ACABAR, DESAPARECER

Com indignação republico post do blog de meu amigo Ricarte que nos dá conta da selvageria da burocracia estatal contra o simbolismo da cultura maranhense que é o Bar do Léo.
Faça mais pessoas tomar conhecimento desse crime contra a cultura!

foto: do blog "Só blônicas"É isso mesmo. O museu Musicultural "Bar do Léo", com todo o seu rico e significativo acervo da nossa cultura, em suas mais diversas áreas da produção artistica e cultural, tem apenas 48 horas para acabar.Os imbecís que tomaram essa decisão não conseguem enxergar naquele espaço fabuloso, admirado no Maranhão, no Brasil e até no exterior, algo além de um mero bar. Por isso decretaram o fim do Bar do Léo.Um lindo e aprazível espaço já visitado e reverenciado por figuras consagradas como Yamandú Costa, a dupla Zé da Velha e Sivério Pontes, Paulinho Pedra Azul, Severino Filho (d'Os Cariocas), Matheus Nachtergaele, Zeca Baleiro, Fagner, Nonato Luís, Turíbio Santos, Luís Nassif e tantos outros.Leonildo Peixoto, o Léo, acaba de ser informado pelo advogado de sua cooperativa, que só lhe restam apenas 48 horas para desocupar o imóvel que ele tanto zelou e valorizou.Se você não conhece o Bar do Léo, aproveite, corra, leve os amigos, os filhos, as pessoas que você mais ama. São Luís pode perder nas próximas horas, um dos mais respeitáveis espaços de fruição e deleite cultural.Se você já o conhece, aproveite hoje, ou quem sabe amanhã, se ainda houver tempo, e se despeça de um dos mais interessantes espaços de vivência boêmio-cultural do país que você já encontrou. Se nada for feito pra impedir essa barbaridade, essa ignorância lapidar, a partir de sábado nem mel nem cabaça. Adeus Bar do Léo.Por favor, passe essa notícia adiante, pros seus amigos, contatos nacionais, autoridades, enfim, o que você puder fazer.Talvez, amanhã seja a última sexta feira do Bar do Léo. Vamos todos lá?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

NICOLAS KRASSIK, UM MÚSICO DE CORDESTINOS


São Luís.O palco do bar e restaurante Da Gema teve a presença, na sexta-feira (10), do músico francês Nicolas Krassik, Edu Krieger e Marcelo Caldi, além do percussionista maranhense Erinaldo muito elogiado por Krieger e Nicolas. Em noite de casa cheia, o público pôde assistir a uma apresentação primorosa de um músico muito bem ambientado na execução da diversificada música brasileira.
No intervalo da primeira parte e ao final do show, pude conversar Nicolas Krassik, que se demonstrou muito afável, solícito e interessado em falar sobre música e sua carreira. Em meio ao aperreio dos fãs, o artista revelou que, quando estava na França, era músico de jazz, tendo gravado inclusive dois discos, e tocado com Michel Petrucciani, Didier Lockwood e Vincent Courtois. O líder do grupo de que fazia parte, cujo nome não me recordo, era louco por João Bosco e foi de onde surgiu seu encantamento e interesse pela música brasileira. A partir daí, lá mesmo na França, como forma de se aproximar da cultura brasileira, tratou logo de aprender capoeira, e, num mês de fevereiro, resolveu visitar o país em pleno carnaval. Ficou meio desanimado porque só conseguia ouvir samba-enredo por todo lado. Mas não desistiu e o resultado é esse que se pode ouvir nos três discos que o músico já gravou no Brasil, depois que se radicou no Rio, em setembro de 2001.
Na Lapa (2004) é produto do encontro do jazz com a música brasileira e traz uma mistura frenética de ritmos brasileiros, tocando sambas, choros e forró em levadas dançantes. Contou no disco com a participações especiais de João Bosco, Beth Carvalho, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Carlos Malta, Daniela Spielmann, Chico Chagas, Samuel De Oliveira, Gabriel Grossi, Henrique Cazes, entre outros. Em Caçuá (2006), seu segundo CD, segue o caldeirão brasileiro e reúne gêneros como choro, samba, baião e xote, com arranjos que destacam a sonoridade do quarteto liderado por Nicolas e conta também com Nando Duarte (Violão de 7 cordas), João Hermeto (Percussão) e Fábio Luna (Bateria).
É um verdadeiro passeio de sabedor pelos estilos da nossa música. Krassik toca seu violino com a segurança de quem muito bem conhece o instrumento e dele tira sonoridades que dão novas cores ao choro ou à música nordestina, cujas riquezas melódica e rítmica explora no seu delicioso e sonoro último CD Nicolas Krassik e Cordestinos, onde, em várias passagens, jazz e forró ficam muito próximos e que o músico atinge uma síntese dos gêneros. É uma verdadeira aventura de sons e de unicidade. Faz muito bem à música brasileira ao reintroduzir o violino, um instrumento muito delicado e melindroso. Com Nicolas Krassik a evolução do instrumento de Fafá Lemos e Stéphane Grappelli está a salvo e permanente. Fica evidente, ao ouvi-lo, que a formação de músico de jazz contribui para esse resultado e que lhe permitiu uma apropriação ou uma audição específica da música feita aqui no Brasil que com isso se engrandeceu.
Aliás, o músico mostrou a preocupação com o elemento evolutivo e criativo na música e citou o exemplo do Trio Madeira Brasil, que, em suas reuniões para tocar, permitia-se muita liberdade, gerando uma forma de tocar que ele chamou de “free-choro”. Insistiu na visão de que o choro não deve ser tocado como uma música clássica, que exige que não se afaste da execução na forma de como a peça foi composta. Para ele o choro é muito diferente disso. É vivo e possibilita maior envolvimento e improvisação do músico. É claro que essa renovação, que, além dos músicos indicados, também tem a frente gente da grandeza de um Hamilton de Holanda, é mais que bem-vinda e só fortalece e oxigeniza o choro ao torná-lo atual e também ao permitir que novos ouvintes se interessem pela maravilhosa música que tem como virtuoses, entre outros, músicos da estatura de Jacob do Bandolim e Garoto.

domingo, 5 de julho de 2009

O CAFÉ FILOSÓFICO DE AUGUSTO PELLEGRINI


Sexta-feira (5) foi a noite de encontro de duas gerações de apreciadores do jazz, em São Luís. A iniciativa ficou por conta do projeto Café Filosófico, da Associação dos Magistrados do Trabalho – AMATRA/MA sob a presidência de Érico Renato Serra Cordeiro. O projeto desenvolve-se em ciclos de palestras e discute temas concernentes à cultura, economia, artes e ao Direito. Parabenizamos a Érico pela empreitada que cumpre um papel relevante aos magistrados maranhenses e à comunidade que pode ter acesso à discussão em elevado nível de grandes questões.
O tema dessa vez foi o jazz e teve como palestrante nada menos que o jornalista, escritor e músico Augusto Pellegrini, maior divulgador do Jazz no Maranhão.
Augusto Pellegrini é autor do livro Jazz – Das Raízes ao Pós-Bop em que desfia a evolução do gênero musical que engendrou uma das mais importantes e influentes músicas populares produzida pela experiência humana. É também apresentador de programas de jazz, em São Luís, desde 1982 e está à frente atualmente do programa Sexta Jazz, que é levado ao ar pela Rádio Universidade FM 106,9 nas noites de sextas-feiras com transmissão também via Internet através do link http://www.universidadefm.ufma.br/.
O escritor foi bastante didático em sua exposição, o que permitiu à assistência uma compreensão clara da intricada evolução da aventura do mundo jazz. Foi do ragtime ao fusion, abordando todas as fases do jazz (ragtime, New Orleans, Chicago, swing, Kansas city, bebop, cool jazz, west coast, hard bop, third stream jazz, free jazz e fusion), salientando-lhes os principais expoentes e os elementos novos da execução da música que permitiram ao jazz passar a um novo estágio. Ao complexificar ou simplificar o toque, as elaborações harmônicas e suas improvisações, os artistas nos legaram uma música de elevado refinamento e grande beleza. Favoreceu para a compreensão do gênero a audição musical e vídeos das apresentações dos músicos que foram feitos ao longo do desenvolvimento da explanação do jornalista. Augusto Pellegrini colocou à disposição de todos os presentes seu abalizado conhecimento e assim prestou um enorme serviço aos amantes do jazz por essas bandas.
Pode-se ainda saber que Pellegrini está com novo livro prontinho em que aborda o jazz com olhar ficcional. No momento, está em negociação com editoras para sua publicação. Que não demore muito.
Tomara que a iniciativa do Café Filosófico se fecunde e possa propiciar aos jazzófilos da cidade maior aproximação para trocar experiências e conhecimentos. Quem sabe se viabilize a formação do primeiro clube de jazz da cidade.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O BAR DO LÉO, A NOSSA PRAÇA ONZE!


Querem acabar com a nossa praça onze – o Bar do Léo. A letra da antiga canção de Herivelto Martins e Grande Otelo revela a destruição do berço do samba carioca, a Praça Onze, quando o prefeito do Rio quis remodelar a cidade pela construção de novas avenidas. Nas imediações da Praça, situava-se a Casa da Tia Ciata, que foi onde o samba, como o conhecemos hoje, nasceu pelas mãos de músicos como Donga, Hilário Jovino, Caninha, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres e Sinhô. Foi lá que Pelo Telefone, cantada por Bahiano (primeiro registro fonográfico de samba, gravada em 1916 e que fez sucesso no carnaval de 1917) foi coletivamente criada e, só depois, recolhida por Donga e Mauro de Almeida que a registraram na Biblioteca Nacional.

No caso do Rio de Janeiro, a destruição da praça não conseguiu solapar a música popular. Isso porque o samba já tinha ido ao Estácio, a São Carlos e à Vila Isabel, configurando o que passou a chamar-se samba moderno, cujos grandes criadores são Bide e Ismael Silva. Noel Rosa também faz parte desse time de inovadores, depois Wilson Batista e Geraldo Pereira. Entretanto, foram Bide e Ismael Silva que introduziram, entre outras novidades, o tamborim e a cuíca que modificaram a cadência do samba, o tornando mais acelerado. Não era à-toa que Francisco Alves, o Chico Viola e Mário Reis subiam o morro para adquirir as novidades dos sambas daquela turma. O mais emblemático desta ação era Francisco Alves. Decretaram, mesmo sem o saber, os compositores do morro o fim da supremacia do samba-amaxixado da primeira geração de sambistas. E foi este samba que simbolicamente foi eclipsado pelo fim da famosa Praça Onze.
Pois bem. Aqui, em São Luís, querem fazer algo semelhante a esse simbolismo aos músicos, poetas, cantores, intelectuais, boêmios e bebuns da cidade, porque estão querendo acabar com a nossa Praça Onze, o Bar do Léo. O problema é que por aqui nada há a substituir, pois nada há de novo ou moderno. A tentativa tosca não é nova, mas agora está amparada por ato da burocracia do governo do Estado, que, por interesses escusos, teima em não renovar a permissão de funcionamento do bar.

O Bar do Léo remonta a 1979, quando era apenas uma lanchonete em que se ouvia a boa música de seu Leonildo Martins. Está situado desde então no Hortomercado dos Vinhais há, portanto, 30 anos. De lá pra cá, o seu Léo tem-se mostrado um organizador da música brasileira e especial da cultura maranhense. Ele transformou o bar, não num museu como muitos insistem, mas numa casa viva que revela a produção da vida dos maranhenses, quer pelos seus objetos de trabalhos, mas também pelos da vida prazerosa e pelos de ludir.
Seu Léo é um curador da cultura maranhense e a expõe graciosamente aos frequentadores do bar. Antes de ficar bem alto pela ingestão das invariáveis misturas de cervejas ou cachaças temperadas, aquelas consumidas na progressão das mais geladas até as muito quentes por obra de algum erro de cálculo do manager Léo, ou quando o sol a nos sorrir manda-nos para casa fazer alguma outra coisa, é então que o visitante pode viajar pelos rincões do Maranhão através da riqueza de seu artesanato (rendas, palhas de babaçu, buriti e outras fibras). Na mobília e nos objetos decorativos do bar, estão presentes elementos que revelam o modus vivendi do cidadão comum desta terra, os quais são indispensáveis à reprodução da vida no dia-a-dia de vastas camadas da população pobre.

Existem lá, impecavelmente organizados pela mente de arquiteto de Léo, pilões, tapitis, alguidares, cachos de coco babaçu, buriti e de juçara, esteiras de palhas (babaçu) que ainda fazem vez de porta ou cama em muitos casebres pelo interior do Estado; rede de pesca, pulsares, lamparinas, lampiões, bules, pinicos, barcos, canoas típicas da região, armadores de rede, apitos para caça, ninhos de passarinhos; há papagaios para empinar, tambores do tambor-de-criola para entoar, bois do bumba-meu-boi, burrinhas, penachos de índios, itens da Festa do Divino Espírito Santo e muitos instrumentos como piano, saxofone, clarineta, flauta violões, violinos, pandeirões, reco-reco e agogô. Mas não só. A casa registra a vida cotidiana das pessoas também pela evolução tecnológica refletida nos equipamentos. Por exemplo: as mesas são sustentadas por base de ferro que são pés de máquinas de costura. Já flagrei marcas do tipo Elgin, Leonan, Singer, Vigorelli... Mais que simples pés de máquinas, aquelas mesas sustentam a memória afetiva de muitos dos frequentadores – quem ao vê-las não se lembra de sua mãe cosendo fazendas compradas nas grandes lojas da Rua Grande, no centro da cidade? Eram calças, camisas, vestidos ou blusas que vestiam estes corpos e almas que agora, ao degustar uma deliciosa tripinha de porco, tira-gosto carro chefe da casa, regada a goles generosos de cerveja, tinham a certeza de pertencer a um passado que nada lhes tiraria. Há uma profusão de telefones seculares, televisores a válvulas (Telefunken, Colorado, Empire, marcas de uma vida), celulares primevos, gramofones, gravadores, filmadoras, toca-discos à pilha e muitas radiolas. E tudo ainda funcionando.

Certa vez, me entediei num aniversário e fugi para o Léo. Eu, Fafá e Benedito, tio dela. Pedi uma cerveja e puf. Faltou energia. Sem problemas. Léo acendeu os lampiões, pôs um toca-discos sobre o balcão, abasteceu-lhe de pilhas e o pôs a tocar Orlando Silva em 78 RPM para nós ouvirmos. Depois disso, eu que iria voltar para o aniversário? Jamais!

Como se tudo isso fosse pouco, o que notabiliza mesmo o Bar do Léo é a sua música. Tanto em quantidade quanto em qualidade. Ali não há música feia. Nunca ouvi e olha que sou frenquentador assíduo e com orgulho. Qualquer tentativa de qualquer consumidor desavisado é logo rechaçada pelo atento Léo, que explica que “esse tipo de música não toca na casa”. O incauto vai logo embora atentar em outra freguesia. Queria mais o quê. Vade retro....
Mas quem melhor define o Bar do Léo, ao meu ver, é Fafá. Ela conceitua-o como um bar para ser entendido. Ou seja, não é qualquer pessoa que pode ser um habitué. Um, por assim dizer, conviva do bar. É necessário, segundo ela, que o indivíduo possua uma sensibilidade cadente dentro de si. Pois quem vai ao Léo, não o faz meramente para um happy hour ou um bate papo descuidado. Faz por apreciar cada introdução, cada nota, a pausa de respiração do artista, a conversa amiúde dos instrumentos por ser um singular ouvido da música.

Mas o bar possui suas tipicidades: houve tempo em que paquerar por lá era coisa quase que impossível, posto que a maior afluência no recinto era do público masculino. Muitas vezes, quando uma moça adentrava, sentia-se pouco à vontade dada a enxurrada de olhares masculinos em sua direção. Desistia logo. Volta e meia e ia embora. Contribuía para isso o fato de até hoje existir placa com advertência: É proibido dançar. Segundo ele, pra evitar bagunça. A coisa agora já está mais democrática.

Mais objetivamente, o Bar do Léo precisa ser entendido no sentido que é uma casa em que a estrela principal é música. E só ela. Serviços de atendimento, cortesia das garçonetes e variedade de tira-gosto tudo isso são itens que ainda merecem melhorias. Mas, sou testemunha, já melhoraram bastante. O fundamental mesmo é a música. Não é raro que ao final da execução de alguns cantores, como Nelson Gonçalves ou Maysa, irrompam aplausos de todas as mesas como se o artista estivesse se apresentado ao vivo. E sabe de uma coisa, está mesmo. Todos aqueles aplausos são dirigidos pra seu Léo que sorrir pelo canto da boca. Ele conseguiu emocionar, desse modo, as pessoas com sua seleção de música daquela noite. Incrível.

Tem músicas que tem a cara do bar. Invariavelmente quando estou na minha mesa, sempre Léo põe na vitrola “Me Ne Quitte Pas” (Jacques Brel) com Maysa, depois com Nina Simone. Alguma coisa de Márcio Greyck e, sempre, que peço ouço bons discos de jazz. Uma honra. Acho que sou um dos poucos que têm essa deferência, mas ele gosta também de jazz. “Por una cabeza”, de Alfredo Le Pera por Carlos Gardel, é tocado quando Fáfa está à mesa. De música em música ele vai contagiando e emocionando seus clientes. Mas a música favorita desse homem pelo que pude perceber é mesmo a jovem guarda.

Faz isso porque possui uma das maiores coleções de vinis, fitas cassete e cds que tenho conhecimento. Não sucumbiu ao mundo dos mp3, até por que perderia a graça e desempregaria seus tão bem conservados aparelhos de som. Léo tem uma fantástica coleção de K7. São fitas de músicas gravadas como se fazia antigamente, cada fita devidamente acondicionada em gaveteiros. É impressionante como ele localiza de cor qualquer música que precise para ouvir-se em qualquer momento. Lá vai ele e cata a fita certa no gaveteiro. Não sei precisar quantos disco em vinil existem no acervo do homem. São milhares, produtos de compra ou doação que ele vem acumulando ao longo dos anos e de quase todos os gêneros: mpb, samba, choro, coco, xote, xaxado, baião e merengue. Bolero, samba-canção, música erudita, bossa nova, jovem guarda, jazz e rock. Já ouvi no Bar do Léo choros compostos lá pelos idos 1880. Discos raros e muitos outros. E tanto quanto sei lá de CDs. O homem é um verdadeiro pesquisador. É o nosso Almirante.

Fico pensando quão mal amada e apenada é a alma desse burocrata de plantão. É a síntese desse ser-cancro que odeia a beleza porque não pôde alcançá-la. Vai ver foi uma daquelas pessoas do “sinto muito, mas não tocamos esta música aqui na casa” que miseravelmente agora quis se vingar. Vade retro!

terça-feira, 23 de junho de 2009

VAZIO


Foi por descuido

que mudei o trajeto,


ou foi por pressão

que mudei o gosto?


Por que hoje me espanto?!



São Luís, janeiro de 1991.

domingo, 14 de junho de 2009

TÂNIA MARIA É JAZZ



Tânia Maria, as fotos não mentem, tem cara de maranhense e produz música na linguagem universal do jazz. Nascida em São Luís (1948), foi morar com a família em Volta Redonda (RJ) aos dois anos de idade. Aprendeu tocar piano com sete e, aos doze, foi vencedora do programa de calouros do muitas vezes duro Ary Barroso, na Rádio Nacional. Nesse meio tempo, acompanhou o conjunto de seu pai e formou seu próprio grupo. Viveu sua adolescência tocando sambajazz nas casas noturnas do Rio e depois por quatro anos, em São Paulo.
Há tempos venho flertando com a música da pianista, que a cada disco a que tinha acesso mais me impressionava. De uns tempos pra cá, para minha satisfação, Tânia Maria vem tomando mais e mais espaço localmente, mormente na internet, mas também na mídia impressa especializada no jazz. Sua obra torna-se pouco a pouco mais conhecida dos brasileiros, e, se internacionalmente a compositora já é mais que consagrada, aqui no Brasil esse reconhecimento tardio também começa ser demonstrado. A confirmação disso pode ser percebida pelo fato que nos últimos cinco anos Tânia Maria vem se apresentando regularmente em São Paulo com sucesso de crítica e de público.
No entanto, até tudo isso se verificar, foram anos de muito trabalho e aplausos tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, onde possui uma discografia de mais de 21 discos gravados. E pensar que tudo isso se deveu em parte ao ostracismo “voluntário” por sua migração para Europa nos anos de chumbo de 1971.
É paradoxal, mas o sucesso da artista deve-se em boa medida à truculência da polícia brasileira da ditadura que a xingou de prostituta, rasgou-lhe o documento de identificação de música e a conduziu no camburão, quando saía, após se apresentar numa boate no Rio, certamente, após horas de execução de sambajazz. Tinha então 22 anos, estava lactente e o trauma foi enorme. Contou isso ao jornalista Carlos Callado em entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo. Após o triste episódio, saiu do Rio direto para Paris para inaugurar a boate “A Batida” no complexo “Viva Brasil”, de Guy de Castejá, conforme divulgaram o jornalista Aramis Millarch e o blog de Carlos Braga, CD Latin Jazz Corner.
O sucesso desde então lhe bafejou o rosto a ponto de receber o reconhecimento de sua técnica pela crítica favorável do prestigiado crítico de jazz Leonard Feather; alguns anos depois conquistou o Prêmio Grammy de melhor performance de jazz com a composição “Come with me” (1983). Esse na verdade foi o ponto de inflexão em sua carreira. E quem iria duvidar do reconhecimento de seu talento? Antes de Feather, foi nada menos que o grande baterista Edson Machado quem observou sobre ela após uma canja: “Toca feito homem”. Vindo quem veio, o elogio deve ter dado a ela a convicção de que conquistaria o mundo da música. Mas a observação de Edson Machado revela-nos também que Tânia Maria já era então uma música de apuro técnico e que executava seu piano com energia e muito swing. Contudo, é bom salientar que, ao ouvir-se a execução, transparece as influências na pianista que vão da profusão rítmica de Horace Silver e também da música de McCoy Tyner. Pude recolher na minha pesquisa, ainda, que a artista tem como um de seus prediletos Wynton Kelly. Mas é a própria Tânia Maria quem revela a orientação de seu caldeirão ao responder sobre o assunto:
“Do clássico, eu gostava de Chopin, mas eu sabia que não seria uma pianista clássica. Até hoje gosto muito de escutar o clássico, agora tenho mais familiaridade com Debussy e Ravel.No popular, o primeiro músico que me impressionou no Brasil foi Johnny Alf, sem dúvida. Depois, o Luiz Eça foi e é um dos maiores pianistas que já conheci. Entre os americanos, a primeira imagem de um artista cantando e tocando é a de Nat Cole. Outros pianistas são Bill Evans e Wynton Kelly. O jazz para mim vai até os anos 60 e 70. É o que gosto. Depois disso ficou mais bagunçado, já não me interessa tanto. Gosto de escutar a melodia e depois a improvisação.”
Das muitas apresentações em festivais de jazz a artista pode tocar e conquistar a admiração do guitarrista Charlie Byrd, que a indicou à Concord Records. O primeiro álbum que resulta desta colaboração, "Piquant", alcança o "Golden Feather Award, conferindo-lhe notoriedade e respeitabilidade no meio jazzístico. Sempre liderando seus grupamentos, a pianista já ladeou com artistas do naipe de Don Alias, Eddie Gomez, Darryl Jones, Steve Gadd, Anthony Jackson e Niels-Henning Orsted Pedersen com quem gravou um belíssimo disco.
Ao ouvi-la, chama atenção a agilidade de seus dedos; sua música é vibrante, enérgica e cheia de balanço. Aplica com maestria a técnica do scat quando canta e sua música é alegre, mas o ouvinte é levado para o campo da atenção pelos bons resultados de melodia e improvisação que alcança ao piano.
Faz tudo isso sem que se deixe de reconhecer na sua sonoridade a alma brasileira que a fez avançar limites. Depois de morar anos nos Estados Unidos, a artista resolveu voltar a residir na França. Sua maior queixa foi a de que, nos Estados Unidos, tocar e ouvi-se jazz se tornou possível apenas em clubes a preços elevados o que, segundo ela, afastou o grande público do gênero. Deve ter razão a artista a julgar pela agenda publicada em seu site na internet sempre apinhada de shows por toda a Europa.
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PS.: DE EUZINHA
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Ao escrever este artigo, estava incomodado com sensação que algo faltara pelo menos para espelhar toda a emoção que a música de Tânia Maria me traz. Ou que, pelo menos, sua relação com Maranhão e nossa forma de cultura ficou ali esparsa e falha. Deu-se a impressão de que a artista tem forte influência da música produzida no Rio, o que de resto é verdade. Mas não toda a verdade.
Há meses, na casa de meu amigo Jarbas Couto, estávamos ouvindo música, quando lá pelo meio da conversa, lembro-lhe do nome Tânia Maria e de seus encantos musicais. Jarbas animou-se e mostrou-me uma interpretação da artista num show de seu ultra fã, Ed Motta. Lembrou mais. Da música "Euzinha", que eu ainda não conhecia. Pois bem. Escrevi o texto e esqueci de mencionar essa nossa história. Eis que Jarbas, ao comentar o artigo, insiste no ponto e vi-me tentando e instado a ir fundo na história de "Euzinha". Fafá localizou e providenciou a audição da música. Para quem é do Maranhão dá orgulho ouvi-la por bem expressar nossos costumes e o jeito de ser. E, pra quem não o é, pode deliciar-se com a agilidade das mãos da moça. A família de Tânia ocupou-se bem em fazê-la herdar, mesmo de longe, conhecimentos de nossa cultura, o gosto culinário, nossa geografia, nossos maneirismos que ficam evidentes na letra da canção. Enfim, plantou-lhe na memória e no coração esse amor por uma terra que nunca pode conhecer, mas que lhe é cara à alma. E ela retribuiu tudo com essa linda música, que é Euzinha, em que swinga como poucos. Restou-me a emoção incontida. Torço de coração que possamos retribuir à Tânia esse carinho que ela nos fez, trazendo-a urgentemente para apresentá-la ao seu povo. Seria uma apresentação memorável e uma homenagem muito justa.
Jarbas, agora o artigo está pronto. Obrigado a ti e à Tânia Maria.