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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O ESTRATEGISTA


Pensou por um momento como se fossem dias. Já estava tudo definido e tão certo. Foi quando andava a esmo por quaisquer ruas, esbarrando em busca de uma a memória tardia que não valorizava mais. Vivera há muitos, arrastando-se por tantos lugares e por anos a fio e ainda agora, deixando atrás de si apenas marcas de seus passos, que logo eram devorados pelo vento que lhe gelava as carnes e a alma. Não se importava mais com as coisas, os cheiros, os gostos, os jeitos e rostos emaranhados na confusão de seus pensamentos. Tudo lhe parecia sem sentido. Era como que se na vida não tivesse havido momentos determinantes, ou tudo que houvesse vivenciado até então, agora, descobrisse ter-lhe fugido com a velocidade de um estalar de dedos: zap! vulpt! Para, no instante seguinte, reafirmar que o tempo não voltava mais como as marcas de seus passos agora definitivamente enterrados e esquecidos pelo tempo.

Sentiu medo, um frio na barriga e um enorme estranhamento de gelar a espinha, pois desconhecia tudo e só com muita força lembrava os amigos, namoradas, pais e seu mais adorado cão. Pediu pra si mesmo paz e saiu gritando até ficar adormecido e inerte, torcendo para ser esquecido. Achou que tinha enlouquecido; ou seria ele que talvez houvesse esvanecido sem saber?

Por via das dúvidas e sem querer confrontar o tempo, passou a viver com a não-memória. Decidiu que só o presente imediato, o átimo, as relações do instante é que seriam bem-vindas, já que desconfiava que não pudesse chamá-los de vividas. Ajustou, assim, que os momentos fossem rápidos como piscar de olhos. Melhor assim, posto que não criavam vínculos, nem expectativas e tão-pouco obrigações, as quais detestava. Agora sua vida era uma “quase não experiência”. Não se importava. Afinal, por que deveria viver com coerência? Já não precisava mais se justificar e isso era em si uma grande vitória. Mas havia inconvenientes nesse procedimento; não conseguia conversar longamente com ninguém, o que lhe impunha conhecer e esquecer logo em seguida um monte de gente que depois lhes fugiam os nomes. Especializou-se em truques para disfarçar e lembrar nomes no meio dos papos. Às vezes só alongava as sílabas ou fonemas das palavras, quando era salvo da situação por alguém do lado que sem perceber lhe dizia o nome do interlocutor. Descobriu, assim, um lado útil das pessoas. Foi um fascínio para ele, algo de se gabar. Agora sim o veriam como importante e muito sábio, sem saber que na verdade aquilo era produto de sua desmemoria. Alguém muito útil para os dias que se vivem hoje. Muito útil aos outros e a si próprio. Agora que o sabia não ficaria pedra sobre pedra, sua vingança estava urdida e desenhada.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

RETALHOS E REBOTALHOS


Este conto quem me enviou foi Augusto Pellegrini. Publico-lhe para apreciarmos.


Ricky López é um saxofonista tenor que também ataca de alto. Ele se chama Ricardo Porfírio Máximo de Souza Lopes, nascido em Oliveira dos Brejinhos, no sertão baiano, soprador de berrante, tocador de bois, mas hoje é Ricky López, músico que tenta a vida nos Jardins, o Éden incrustado na Paulicéia, o sax, as luzes, o agitado e frenético “way of life”.
Ricky mora no primeiro andar de um prédio de apartamentos com jardim verde-florido e tudo mais, cinzeiro, cigarro, camisa amarrotada e copo d’água pela metade, o cenário enfeitado por uma pirogravura mostrando a fachada da antiga Faculdade de Medicina e um calendário de parede Pan-Am, mostrando aqueles lugares da Alemanha e da Suíça que estão definitivamente fora do nosso alcance e do nosso bolso e da nossa cultura.
Sapato tombado de lado, meia revirada, mesa de centro com capas de discos de vinil – Lester Young, Cannonball Adderley, Jimmy Giuffre – Ricky López “wants to be on the top”.
Mas Ricky Porfírio anda arregaçando com os nervos.
Primeiro a adaptação. Afinal, começara tocando na banda da brejeira Oliveira, aprendendo o sopro com o tio Emérito – “olhe aqui, menino, isto é uma palheta, isto é um bocal, o saxofone é mais bonito, tu ficas bem com o instrumento no pescoço!” – na verdade, ele mais parecia um boi de parelha com aqueles arreios todos e o pescoço pendido para baixo, feito bago de uva, mas ele não deixou por menos, soprou e soprou, aprendeu a diferenciar fusas de semi-fusas, e percebeu que existia algo mais do que o bonito, algo muito mais sensual e humano na voz do sax-tenor,nas curvas do sax-tenor, no “sax-so-funny”, no “sex-soul-phony”, com todos os seus tentáculos e todas as suas ventosas, as tentações do vício, as tentações da carne, as tentações da noite, a carta da tia chorosa, da tia Jerusa, - “volta, filho, vem de volta tocar seu bombardino nas festas da cidade, deixa isso de aventura, chega de tanta querência, tio Emérito está esperando, já está com oitenta mas ainda é forte e parrudo, ainda apronta suas chamuscadas nos forrós da praça, ainda curte a sua cana brava na vida caiana!”.
Mas Porfírio foi ficando, foi se adaptando à metrópole, passou longe do demônio dos vícios, soprou numa festa de estudantes de direito e caiu no gosto dos presentes – “toca Summertime!!, toca Stardust”” – e ele que só sabia soprar o Cego Laurentino, mas na calada das madrugadas foi se esgueirando por entre as casas musicais, e foi se habituando com o vibrato de Coleman Hawkins ou com a enxurrada de notas de John Coltrane nas noites solitárias ou nos dias de granizo.
Nascia Ricky López, artista de jazz, paletó largo, camisa estampada e colorida, sapato branco e dedos ágeis, apertando aqui e ali, acariciando a coluna dorsal do seu sax dourado, cujo brilho refletia todas as cores e todas as caras apesar da fumaça embaçada e da meia obscuridade das lâmpadas cada vez mais “dim”.
É preciso ser artista para ser artista.
É preciso ter persistência para enfrentar as portas batidas na cara quando à procura de oportunidades, é preciso ter estômago para não vomitar na cara daquele figurão que pensa que sabe tudo e te trata como um idiota, é preciso ter saco para aturar aquele público errado, sempre pedindo para você tocar aquela música que você não conhece ou que conhece e detesta, é preciso ter sorte para descobrir um emprego onde você possa dar asas às emoções das notas musicais, das suas notas musicais, bem entendido, e ainda ganhar o miseravelmente necessário para cobrir o mínimo das suas necessidades.
É preciso ser de pedra para aturar o desaforo daquele acretinado que pede para você tocar a música errada na hora errada, e vê-lo, um apanágio da incultura, gargalhar acompanhado pela fêmea mais “cover girl” do pedaço, ela também uma burra de penacho para concordar com aquela cara, com aquele jeito, com aquele mau gosto e provavelmente com aquele bafo.
É preciso ser falso para conseguir chegar ao prazer todas as noites tocando exatamente a mesma coisa, é preciso ser mágico para tentar encontrar naquela harmonia alguma nota ou alguma pausa escondida, alguma passagem que não seja rotineira.
É preciso ser um gênio para sair daquele buraco às quatro da manhã, observando a decadência pouco a pouco tomar conta de cada um dos “habitués” de voz pastosa, o garçom colocando três ou quatro doses a mais na conta – esta é para o santo – e a sempiterna reclamação que nunca resolve absolutamente nada.
É preciso ser um santo para estudar música seis horas por dia.
É preciso ser Deus para tocar como Charlie Parker

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A CORDA


Publicado originalmente no livro Coisas de Augusto Pellegrini, o conto A Corda contextualiza os desvãos da vida de seus personagens a partir de um determinado ponto de vista originado em Freud. Vai mais além disso. Usa como mote a abordagem psicanalítica para nos mostrar como tão esquisitos e estranhos nos tornamos e até nos desconhecemos. É quando nos negamos ao perceber que somos capazes de fazer o contrário de nosso ideário. O fracasso é um calço que pesa no calcanhar do sapato e impede a caminhada. Quem se reconhece?!

Por: Augusto Pellegrini

Sigmund falou, e não foi para mim. Escreveu livros, teceu comentários, expôs teses, realizou conferências. Pois bem. Não estive presente a nenhuma, não discuti as suas teses; não li nenhum livro seu. Não comentei seus comentários. Sigmund falou, e não foi para mim. Nem sequer para o Zacarias.

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A corda.
A corda balança como se na extremidade balançasse um cadáver. Um fio de prumo no prumo, dependurado, preso lá no alto do prédio, passando em frente da janela que é só vidro, no décimo primeiro andar, altura suficiente para um homem sentir as sensações de Ícaro, projetar-se nos ares, voar sem asas.Eis a corda.
A corda balança ao sabor do vento e bate na parede corrugada de concreto ao lado do fio de telefone e do pára-raios, prendidos com grampos.
A corda está arrebentada, criminosamente arrebentada na altura do décimo primeiro andar, mas puxada para baixo pelo peso do morto enquanto vivo, agora pende frouxa até o nono.
E o andaime lá no chão, aos pedaços.

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Uma das minhas ocupações prediletas é fazer cinema; registrar fatos na máquina e depois colar os pedaços de celulóide, para ver os efeitos.
O dia e a noite passam, os olhos ardem e as costas reclamam, a gente trabalha meio em pé e meio sentado, só pelo prazer de ver a coisa chegar a um fim, montando filmes sem cessar e sem cansar o espírito, é só não se concentrar no mundo profano que nos cerca – os bares repletos e a alegria nas ruas – senão saio correndo do laboratório, paletó nas mãos e cheirando a tetracloreto, enjoando o fígado do ascensorista, e vem a desconfiança de não ter dado a atenção devida à namorada que espera.
Arte é arte.
Estava assim absorto nas minhas artes quando surgiu Zacarias, de tez escura, magro e alto, de cavanhaque e sotaque, a preocupação juncando a testa e o pavor ondulando os músculos da face. Tivesse eu uma filmadora às mãos e descarregaria toda a sua corda sobre o seu semblante, para alguma coisa iria servir algum dia, com certeza.
- Olá, professor! Foi ele dizendo para introduzir a conversa. Eu introduzia o negativo no editor. Ele não prestava atenção.
- Olá, Mestre Zacarias! – respondi eu. Este tratamento nos era familiar.
Sua silhueta com cavanhaque se desenhava numa tela, à minha direita. Suas mãos gesticulavam, nervosas.
- Estou num mato sem cachorro. A polícia anda atrás de mim.
Estava suando.
O que queria ele que eu fizesse, que o escondesse? Que declarasse em praça pública conhecê-lo e dar fé jurada que era inocente? Facilitar sua fuga para o exterior?

Que ele era inocente eu não tinha dúvida, apesar de não saber qual era o crime, apesar de não saber se havia crime. Afinal, a polícia poderia estar atrás dele em busca de um testemunho, ou para encaixá-lo num batalhão de investigadores, ou simplesmente para condecorá-lo. Sim, porque Zacarias merece uma condecoração, mil condecorações. A Cruz de Santo Inácio, a da Ordem das Azáleas ou das Ajácias, ou a do Grande Cã.
- Eu fui pra praia sexta-feira à noite – começa ele a contar.
- A noite estava clara e quente, e eu suarento. Peguei minha roupa de banho e de baixo, apanhei um ônibus e fui pra praia. Não tenho testemunhas, mas estive lá. A praia estava clara e quente, e eu suarento. Era noite, mas mesmo assim tomei banho de mar – você já fez isso? É uma beleza, as ondas estavam altas, a praia deserta e a água vinha molhar até quase o fim da areia, a lua parecia maior, ou era o contraste com o fundo negro do céu. Água de coco gelada, e o cheiro do mar.
- Tudo maravilhoso. Até esqueci do meu apartamento, dos meus livros. Do lado de fora do meu apartamento tem um monte de andaimes, os pintores estão pintando, e tem uma corda que passa bem em frente a minha janela. Uma corda grossa, cheia de nós, para segurar a madeira e o pintor sentado nela.
- Pois bem, comigo mora aquele paraguaio, ou boliviano, eu nem sei direito, aquele que pinta quadros de fetos carecas, o Jeremias, incapaz de fazer mal a uma mosca. Ele também não estava em casa na sexta-feira à noite, foi se encontrar com uma mulher, foram para uma boate, e ele voltou só de manhã cedo, cansado demais para ficar acordado, e dormiu.
- O outro rapaz que tem a chave do apartamento disse que chegou lá por volta das onze da noite e saiu antes de o Jeremias chegar, acompanhado, é claro, e não sabe de nada. Disse que não iria se preocupar com coisa alguma, dada a categoria da mulher que estava com ele. Só vendo pra crer.

Até aqui eu não tinha entendido coisa alguma sobre a perseguição da polícia. Ninguém pode ser perseguido pela lei só por morar em um apartamento que tem livros do chão até o teto, livros no guarda-roupa e no banheiro, livros em cima da cama, quadros com figuras folclóricas, cartazes de cinema e de teatro, bonecos de barro, retratos de mulheres nuas de frente e de costas espalhados por toda a parede e rolos de filmes, mesmo com um boliviano, ou paraguaio, amigos de chave, e muito menos ou principalmente por ter uma corda dançando em frente à janela.
- Estou ficando maluco. Cada vez que acordo, olho a corda e escuto a polícia batendo na minha porta e me levando aos berros pelo corredor cheio de eco e me atirando num elevador e numa cela, e ditando a minha sentença.
- Cortaram a corda, professor, cortaram a corda com canivete ou tesoura, bem na cara da minha janela!” Agora eu compreendia. Cortaram a corda. E daí?
Põe outra corda no lugar, paga o prejuízo para os pintores e uma cerveja para o zelador, faz uma festinha de comemoração e convida o Jeremias e o amigo da chave com duas ou três mulheres extras, e deixa o uísque com água de coco rolar sobre os livros de direito e sobre as barrigas lisas.
- Naquela tarde eu estava fotografando uma modelo lá no apartamento. Aquelas poses para publicar em jornal vagabundo, a perna levantada, a saia arregaçada e a blusa desabotoada, você sabe.
Eu sei.
- De repente, a corda se distendeu mais do que devia e depois afrouxou. Ao mesmo tempo ouvi um grito, parecia o som de uma sirene, que foi sumindo e terminou com o barulho de telhas quebradas. Não tive coragem de olhar. A câmera tremia, o tripé tremia, o prédio tremia. A modelo abotoou a blusa, ajeitou a saia, se debruçou na janela e viu o corpo torcido no telhado cinza, lá em baixo, esborrachado como um tomate.
- Agora eu compreendo. Mas você não precisa ter medo, pois estava na praia, naquela lua grande, no coco verde, na areia molhada, se divertindo no calor da noite, enquanto alguém cortava a corda.

- A perícia foi quem descobriu que a corda estava cortada. Também, estava de um jeito que não precisava ser perito pra ver. Não sei, não sei, estou apavorado. Acordo todos os dias e vejo a corda balançando, acenando para mim, me convidando para um passeio pelos ares. É um entra e sai de policiais o dia inteiro. Vou acabar ficando louco. O Jeremias jura que não foi ele, tem certeza que não foi ele, pois ele não abre a janela à noite, porque tem frio. (Mas era quase manhã, e o calor está medonho...).

- Tengo frio, y en este piso hace aire demás. No vi cuerda ninguna. No uso navaja. Y, además de eso, estava borracho, era madrugada, era sábado.
“?Que me importan las cuerdas?
- O zelador me olha com olhos de inquisição. Eu já nem tenho certeza do que se passou. O Jeremias eu sei que não foi – ‘la Libertad no consiste en hacer lo que se quiere, sinó en hacer lo que se debe, decia Campoamor’ – Jeremias vive usando frases feitas e convenceu até as paredes de que é inocente.

- O outro rapaz, o da chave, diz que nunca pediu para ter chave alguma, que foi oferta da casa, e que não iria complicar a vida de ninguém – muito menos a dele – além de outras justificativas cheias de lógica. Resta a mulher, talvez ela tivesse se levantado sorrateiramente e cortado a corda enquanto ele dormia placidamente; mas por qual razão haveria ela de cortar a corda, assim sem mais nem menos?
Estou impressionado com a narrativa do Zacarias. Ele sai – “adeus, professor!” – (será que vai se suicidar?) com uma gravura debaixo do braço, os ombros balançando de um lado para o outro, o cavanhaque suado e a porta batendo à sua partida.
Volto então aos meus filmes, e a corda agora balança na minha mente. Não tenho nada a ver com o acidente, com o incidente, mas Jeremias tem os seus bons motivos, não pode se complicar ou é deportado, encaixotado e carimbado como um amontoado de arenques – este lado para cima. O outro da chave pode jogá-la num abismo ou num rio, há tantos rios por aí cheios de lodo, quem é que iria procurar uma chave nos intestinos de um rio canalizado? Se bem que o sumiço da chave não prova nada, existe a também a mulher, que bem poderia ter sumido com uma daquelas estatuetas raras que ficam naquelas estantes povoadas de livros – metafísica, dialética, dietética – e vai ver que sumiu mesmo.
É mais fácil achar uma chave no fundo lodoso de um rio do que notar a falta de um elefante naquele apartamento, principalmente se for de marfim. O zelador não iria escalar a lateral do prédio e ficar com as unhas esfoladas, nem subir pela corda e ficar com a palma das mãos pior que as de Cristo depois que lhe pregaram os pregos, para cortar a corda na altura do décimo primeiro andar e correr o risco de cair com ela – subiria no máximo subiria até o quinto – e o pintor, se quisesse se suicidar, tomaria um balde e meio de verniz e teria uma disenteria de envenenar o mundo antes de dar a sua última contorção.
Agora abandono os filmes de vez e acendo a luz fluorescente que fica no teto sobre a minha cabeça. Arrasto o banco para trás e cerro os olhos. Já faz muito tempo, muitas horas, que estou trancado aqui neste estúdio, sem comer e sem dormir. Isto não é uma cela, nem internato, o que estou fazendo aqui que não vou embora?

Já nem sei o que tenho feito, ao certo, os dias e o calendário já perderam o significado e o sentido.
Ponho a mão no bolso – o que é isto!?
É uma chave.
Vejamos – minha não é, pois a minha é verde. A do estúdio também não, que se fecha com cadeado. Também não é chave de carro, e eu não tenho carro. Lembro-me com clareza que esta chave me foi dada pelo Zacarias, faz mais de um mês. Eu havia deixado um álbum de músicas clássicas sobre a sua cama, e temi que se transformasse em pedestal para uma pilha de livros, então ele me deu a chave para eu ir buscá-lo. Mas... então eu também possuo a chave do apartamento! E ela queima a minha mão como um talismã do inferno.
A corda.

Zacarias não foi, estava na praia. Jeremias não foi – que lhe importam as cordas? O amigo não foi, vai jogar fora a chave, e assim perder a oportunidade de novas aventuras. A mulher prefere roubar elefantes, e a modelo cuida mais de fotografar semi-nua. O zelador não tem mais idade para ser alpinista, e o pintor morreu como um tomate.

Só restamos nós, eu e a chave.
Já nem tenho certeza de que fechei a torneira ontem, ao sair de casa. Já nem sei se foi ontem. Fecho outra vez os olhos e nem sei a cor da minha camisa, e se ainda sei que estou de camisa é porque me apalpo e a sinto. E a namorada – estará pacientemente me esperando em alguma parte do mundo?

Como posso ter certeza de que não fui eu quem cortou a corda, deslizando como um réptil em direção àquela janela?
Estou começando a sentir enjôo, gravidez é claro que não é, nem maresia. É medo.

Mestre Zacarias me transmitiu todo o seu pavor e toda a sua lógica ilógica.
O que é que eu andei fazendo por aí, se ainda estou com a tesoura entre os dedos? Cortando filmes ou cortando cordas? Escapando da polícia, trancado aqui neste quarto?

Terei sido eu?


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Sigmund falou sobre isso, e não foi pra mim. Talvez para estes loucos, que me rodeiam.

Será que previu algum dos meus dias?

domingo, 11 de outubro de 2009

BOLINHAS DE AÇO


Tinha, naquela hora, ganhado a rua pra comprar jornal na banca de revistas como desculpa para passar o tempo.
Encontrava-se em meio à balbúrdia dos carros que passavam num frenesi de motoristas que se apressavam na volta para a casa como a evitar o engarrafamento do trânsito. Na cabeça só pensamentos esparsos e incertos. Foi quando se deparou de forma surpreendente com uma prosaica esfera de rolamento, suja de graxa espessa e com muita terra ao seu redor. Logo ali aos seus pés estava o objeto que lhe era tão familiar e que lhe abrira, naquele momento, as portas de uma viagem vertiginosa para dentro. Um busca que lhe pareceu estranha.
Depois de tanto tempo ela estava de novo como a reclamar o significado de uma vida e uma grande espera.
Como se o convite fosse feito, ele a recolheu do chão e pôs-se a rir num contentamento que o deixava nervoso. Tratou logo de cuidar da bolinha, limpando-a de cada grão de terra em meio a óleos desgastados com um carinho esmerado. De repente, voltou-lhe a lembrança da infância, quando havia muita luta da criançada nas disputas dos jogos de peteca, pois quem possuísse as maravilhosas bolinhas de aço leva vantagem no jogo. Era na época de chuvas que a brincadeira corria solta e que a algazarra dos meninos se completava num corre-corre de um lado para o outro. Tempo de pés enlameados e de cheiro de terra molhada que naquele momento lhe tomava as narinas novamente. Aquelas bolinhas tinham peso e personalidade; diziam-se de aço e prestavam-se muito bem, ao atingir as petecas de vidro dos adversários, para quebrar-lhes as almas. Tec! E pronto. Uma banda para cada lado era o espólio e o resultado de míticos duelos. Choro peremptório do perdedor ante o riso insolente do dono da peteca de aço. Era difícil encontrar aqueles tesouros de aço e por isso, agora ele sabia, sorrira tanto ao reencontrá-la ali graciosamente depois de tantos tempos e ao alcance de seus olhos. Era como se dali saísse correndo para uma infância que há muito deixara guardada em algum escaninho de quimeras. Tinha novamente trazido pra si a beleza daquela vida de inocência e de generosidade. Resgatou a convivência de amigos que se perderam pelos caminhos. Mas agora não; todos estavam ali juntos mais uma vez para de novo brincar de peteca, contar estórias e correr descalços pelas ruas. Todos na sabedoria da memória que recupera vidas num segundo.
Então tornou a olhar fixamente a esfera agora já limpa nas mãos. Mirou-a mais uma vez e sentiu-se ante a um espelho provocado pelo brilho intenso que reluzia na sua frente. Deixou de ser criança e voltou, pouco a pouco, para seu corpo adulto, alquebrado por tantas idas e vindas próprias a existência de um homem de cenho forte e já maduro. Mas era diferente o riso que mostrava agora entre os dentes.

sábado, 25 de julho de 2009

ELEONORA E ALBERTA


Billie Holiday fez cinquenta anos de falecida e, claro, seus encantos e talentos foram decantados em inúmeras matérias na internet. Recebi email de Augusto Pellegrini com o conto Eleonora e Alberta que foi publicado no seu livro O Fantasma da FM (1992).


O autor está revisando os contos e pretende reeditar o livro brevemente. Já o havia lido e por possuir vários outros bons contos é uma leitura recomendada. Desejando partilhar sua leitura com nossos leitores, solicitei autorização a Augusto para postar o conto que prontamente concordou.

Ei-lo. Espero que gostem!




Eleonora e Alberta


Por Augusto Pellegrini



Quando Eleonora nasceu, nos idos de mil novecentos e quinze, em um cortiço mal-cheiroso de Baltimore, sujo e negro como todos os cortiços do mundo, afagada pelo vento do mar e pelo cheiro forte de peixe – o peixe colocado nos caixotes com gelo e as vísceras cobertas por moscas azuis se entulhando junto ao lixo da baía de Chesapeake – Alberta já era uma graciosa jovem.
Alberta era dona de uma simpatia irradiante que sempre a acompanhou ao longo da vida, embora nunca tenha sido bonita. Tinha o rosto comprido e os olhos maliciosos, o cabelo crespo preso atrás da nuca e os gestos bruscos, e parecia bem mais jovem na simiesca figura dos seus já vinte anos.
Eleonora chorava vagidos de melancolia usando a máscara do desencanto e da desilusão que seria o seu rictus perene, encolhida nos braços pouco espertos e mal-costumados de uma mãe de pouco mais de treze anos de idade. Ela havia sido expulsa de casa com a severidade vitoriana do pai inconformado e da mãe indignada – afinal, se perder assim vá lá, tantas são as mocinhas que tropeçam no umbral da existência, mas não com um músico semi-analfabeto, um miserável desempregado que, além de tudo, era negro!. Se pelo menos tivesse “errado”, mas com o filho de um comerciante, ainda poderiam sobrar uns dólares de prata para consertar o mal-feito...
A mãe de Eleonora, inexperiente e confusa, havia conseguido um emprego de ajudante na casa grande de um burguês de classe média alta e fazia os seus deveres como se a Guerra de Secessão ou se Abraham Lincoln não tivessem existido, como se os escravos não tivessem sido alforriados e a chibata ainda cantasse vergalhando os dorsos cor de pau-de-canela.
Enquanto Eleonora chorava e sua mãe lustrava a bandeja de prata que chegara da Inglaterra no bojo do Mayflower, Alberta exibia seus dotes artísticos e exercitava o seu canto em alguns dos chamados cafés e casas noturnas de uma Chicago que começava a aprender as manhas da violência com a influência siciliana da mão negra, a “cosa nostra”.
Eleonora Fagan, com seu nome de foto-novela, estava começando naquele instante uma vida mais voltada para o último ato de uma ópera do que para o último capítulo de uma história de amor, mais para tragédia grega do que para comédia francesa, mais para heroína de injetar na veia do que para heroína de folhetim, uma vida ao mesmo tempo predestinada ao sucesso e ao insucesso.
Já Alberta, com seu nome de nobreza, se constituía numa rainha da noite, compondo e cantando músicas e sendo cortejada pelo blues, mesmo sem esquecer o seu passado, a infância precária na Memphis racista, os atentados da Ku Klux Klan, a falta de oportunidades e o ingresso na marginalidade precoce sob o olhar do xerife ruivo, gordo, intolerante .e beberrão
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No ano de mil oitocentos e noventa e cinco, tanto na poeira de Memphis como em qualquer outro lugar dos Estados Unidos, a vida não era fácil para camareiros de trens e de bordéis, principalmente se fossem negros, representando uma constante e monótona troca de lençóis e fronhas sujos pelos freqüentadores de curta duração e pouco banho, e pelos passageiros de longo percurso, repletos de parasitas, coceiras alérgicas e sífilis, percevejos à parte.
A mãe de Alberta era camareira de bordel, e seu pai um camareiro de trem.
Educar uma menina dentro do ambiente alegre, mas libertino, era uma tarefa complicada para uma mãe que não desejasse ver a filha envolvida com algum soldado de passagem ou com o próprio garçom ao final da noitada.
Assim, quase que estimulada pela própria mãe, que lhe entregou alguns poucos dólares disponíveis no momento, Alberta colocou seus parcos trapos numa maleta que tomou emprestada a uma daquelas mulheres que a sua mãe já lhe proibira de conversar, dependurou nas orelhas um par de argolas douradas e se pôs na estrada antes mesmo de completar oito anos, arrastando seu chinelo rumo ao desconhecido, evitando embarcar no trem onde o pai estava naquele exato momento apanhando as botinas de um próspero mercador de remédios para lhes dar uma demão de graxa.
Alberta chegou à poeirenta Chicago e foi esfregar o chão de um botequim qualquer enquanto ouvia interessada as cantoras da moda cantarem os seus blues e spirituals.
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Quando Eleonora nasceu, e abriu os olhos para o mundo por quem seria devorada pouco a pouco, Alberta jê era perita em alta malandragem, sentando-se no colo daqueles bêbados enlevados com a sua juventude e candura, beijando-lhes a boca sôfrega sabendo a cigarro e Bourbon, beliscando-lhes o lóbulo da orelha numa malícia insuspeita pela sua pouca idade e correndo as unhas pelo peito suado e cabeludo ao mesmo tempo em que tirava as mãos grosseiras e impertinentes que cismavam em se insinuar por onde não deviam. Nesse pega e tira, empurra e põe, afaga e esfrega, lá se ia de embrulho a carteira com o dinheiro do idiota que acabava depois enxotado do bar a ponta-pés por não ter como pagar a conta, atirado à rua por um leão de chácara de dois metros de altura e a cabeça enfiada nos ombros, campeão de boxe do distrito e santo protetor do dono da espelunca e das imaculadas mocinhas lanceiras.
Alberta então se recompunha, abotoava o vestido e ria o riso dos inocentes, para depois dividir a féria da noite com o leão e com alguma amiga leoa que havia participado do jogo.

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Enquanto isso, papai Clarence, habituado com as rodas boêmias, foi pouco a pouco se afastando de Eleonora e de “mamie”, ambas consideradas por ele como um indesejável estorvo.
Após pensar e repensar os prós e os contras, ele resolveu sumir de vez para tocar a sua guitarra e conquistar novas mulheres, obrigando “mamie” a transferir Eleonora aos cuidados de outra mulher que tinha como entretenimento especial espancar a menina sempre que lhe desse na telha, sob qualquer pretexto – fez ou não fez, quer ou não quer, vai ou na vai, gosta ou não gosta, principalmente quando alguma querela envolvia a filha legítima – e aí então, dá-lhe bordoada, na mais pura e cândida crueldade.
Eleonora fugiu.
Saiu à procura de qualquer coisa que lhe quisesse bem, e achou alguma coisa parecida com amizade na companhia de viciados, gigolôs e algumas vagabundas que faziam o ladro negro da juventude dourada dos anos dourados. Logo vieram a detenção, o interrogatório, as lágrimas, o veredito e a internação na diabólica casa de correção onde não se corrigia coisa alguma, um circo de horrores onde o que mais aprendeu foi odiar a vida.
Os fantasmas apareciam para atormentar o dia-a-dia e as dúvidas vinham lhe povoar os sonhos durante a noite.
Os fatos foram se desenrolando como numa fita cinematográfica. Uma menina caiu do balanço e quebrou o pescoço – morreu quase que instantaneamente com os olhos revirados e os braços se debatendo como uma galinha sacrificada em agonia. Eleonora agredida por outra interna e revidando com um cabo de vassoura, a monitora a acusando de ter feito isso e aquilo (“isso” Eleonora até concordava que fizera, mas “aquilo” ela não tinha feito) e então a chamada a um severo parlatório naquele fim de tarde conturbado.
Como castigo, uma noite trancada ao lado da menina morta, os olhos ainda abertos e revirados e a boca entreaberta como que a pedir clemência. Eleonora em desespero junto com a revolta e o medo tendo a impressão que a morta balbuciava o seu nome falando injúrias e maledicências, e a lembrança longínqua da avó morrendo enquanto a ninava em seus braços, cantarolando canções de adormecer e adormecendo para a eternidade...

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E Alberta continuava cantando.
Alberta cantou como um passarinho. Passou a infância, a mocidade, a idade adulta e o princípio da velhice soltando seus trinados e vivendo humildemente, como bem servia a uma filha de camareiros.
Ela encantou com a sua voz rouca e melodiosa até que, aos sessenta anos, sentiu-se cansada e ansiosa por ajudar as pessoas. Cantar simplesmente não bastava, ela tinha que ser como a formiga, laboriosa e útil. Tornou-se então enfermeira.
Alberta ocultava a sua alma de passarinho entre injeções e curativos, termômetros e drágeas, a sístole-diástole do estetoscópio fazendo as vezes do contrabaixo e ditando o ritmo da vida, a sirene da ambulância sabendo ao sopro de Louis Armstrong, Saint James Infirmary.

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Eleonora saiu do internato, voltou parta o colo da “mamie” e caiu nas graças daquele saxofonista com cara de sono a quem chamou de “Presidente” pelo apoio forte e desinteressado que lhe prestava, o que veio tornar o seu horizonte mais azul.
Ela agora cantava com a sua voz de gata, enquanto o Presidente fazia fluir notas dolentes e preguiçosas do seu instrumento dourado. Ela cantou e encantou, encheu os salões de belos sons, viajou e conheceu a América e, como a cigarra de La Fontaine, cantou como se cada dia fosse o último canto da sua vida.
Teve momentos de glória, teve momentos de angústia, teve uma vida de gardênias e jóias. Teve também problemas causados pela cor – afinal, por que Arthur, aquele judeu maluco, teve a idéia de incluí-la numa orquestra composta apenas por músicos brancos?

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Alberta envelheceu sem fortuna, trajando sua roupa simples, casaco puído e calçados de liquidação, carregando seus pecados junto aos embrulhos e aplicando cataplasmas para minimizar as dores, até que lhe apareceu um príncipe pianista – como nos contos de fada – que convenceu o anjo sapeca com mais de oitenta anos e voltar aos palcos.
Eleonora cresceu em cada canção e em cada casaco de visom, em cada jóia e em cada flor a lhe ornamentar os cabelos nas noites de platéia plena, cada nota musical um contrato milionário. No entanto, na hora da verdade, ela se escondia na bebida e na solidão, nas drogas e nas lembranças do passado.
Eleonora era ainda jovem, quarenta e quatro anos de tragédia e glória, quando foi levada para o hospital e morreu de tudo – álcool, tóxicos, tristeza, desajuste e solidão.
O Presidente chorou.
Alberta morreu como uma flor que nunca foi colhida, quase noventa anos de vida peralta e matreira. Nasceu vinte anos antes de Eleonora e se foi vinte e cinco anos depois.
O pianista fechou a tampa do piano como quem fecha um esquife, em sinal de pesar.

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Eleonora Fagan é o nome de batismo da cantora Billie Holiday. O nome Billie foi inspirado numa obscura atriz do cinema mudo chamada Billie Love e o sobrenome Holiday foi herdado do pai Clarence Holiday, guitarrista de orquestra que na verdade jamais lhe emprestara oficialmente o nome. Fagan era o sobrenome da mãe.
Billie Holiday morreu em julho de 1959 e deixou uma obra imortal.
Alberta é a cantora Alberta Hunter, uma das mais consideradas cantoras de blues e gospel, co-autora de Downhearted Blues, ao lado de Lovie Austin – primeiro e maior sucesso de Bessie Smith, mais de um milhão de cópias vendidas em 1923 – ao lado de Lovie Austin.
Ela morreu em outubro de 1984 e deixou como lembrança a sua voz grave e a sua graciosidade.
O Presidente é Lester Young, para quem Eleonora era simplesmente a “Lady Day”.
Arthur, o judeu, é Artie Shaw, clarinetista, maestro e arranjador, que viria tempos depois a escrever uma obra-prima “Encrencas com Cinderela”.